sábado, 31 de agosto de 2013

ESCREVER POEMAS COM POESIA

*Escritora, membro da União Brasileira de Escritores e da Academia Araçatubense de Letras

Folheando a revista da UBE, “O Escritor”, do mês de agosto, cheguei a um artigo muito belo e providencial para todos os que gostam de poemar: uma carta do poeta Manoel de Barros, enviada à poetisa (ou poeta?) Raquel Naveira, cujo teor era a análise que ele fizera de alguns poemas dela, talvez nos anos 1970, conforme entendi.


Reproduzo aqui o que mais me encantou nas palavras desse poeta maior:

"É preciso colocar o leitor desde o primeiro verso, se possível, ou desde a primeira estrofe, dentro da supra-realidade. É preciso que se implante a mágica. E mágica, em poesia, você sabe, é com metáfora que a gente implanta. Ou com música. Sei lá, um mistério desses.

Noto ainda que você dá mais importância aos sentimentos do que às palavras. Aos movimentos do coração mais que os da inteligência. Você tem um mundo interior muito bonito e se empolga com ele, esquecendo um pouco o verso, essa unidade rítmica do poema. Sinto que você quer se contar e muitas vezes, para isso, se derrama quase prosaica. Eu acho que a gente tem obrigação de escolher as palavras ou, pelo menos rejeitar algumas que soam feias (...) Eu evitaria alguns lugares-comuns como estes: Desejos frustrados; reflexos prateados; alegria de viver; sonhos inatingíveis etc. Lugar-comum é esclerose da língua. Poeta tem como função descobrir novas relações para as palavras (...) elemento construtivo do verso é o ritmo. Verso é o mesmo que uma construção fônica (...) O seu mundo interior é fascinante, mas não se empolgue muito em contá-lo. O fazer poético é que torna o poema durável. Não é seu assunto. Todos os assuntos já foram ditos. Mas eles só ficam na terra se fundados, inventados de novo pela linguagem, transfigurados." E termina: "Gosto mais das coisas que entendo. Principalmente gosto daquelas que eu entendo de diversas maneiras. A ambiguidade é que abre o poema para todos os entendimentos".

Confesso, ainda não conheço os poemas de Raquel Naveira, mas por leituras sobre ela sei que pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras e é diretora da UBE. Tenho certeza de que as palavras de Manoel de Barros atingiram Raquel Naveira, muito mais do que a mim, principiante nos escritos, e por certo ampliaram suas possibilidades de poetar com mais segurança pelos caminhos da poesia. Quero lê-los porque da poesia de Manoel de Barros já sou leitora assídua.  

Por tudo isso, atrevo-me a mostrar-lhes o que penso sobre a arte de poetar, não sem antes pedir licença aos que entendem disso muito mais que eu.

Construindo um poema

Senta-te sobre a fala
e cala
para ouvir o pensamento teu.
Cultiva o silêncio
o momento
o deserto da emoção.
Busca em tudo,
insiste
sem projetos,
mas com razão.
Sente os desejos
da descoberta...
do medo...
do pejo.
Segreda (sempre para ti)
teus sonhos,
teus amores,
teu universo.
No trabalho artesanal,
a palavra ecoa
compõe a melodia
e penetram outro espaço
num abraço.

Poesia?
Desafio você a pensar: o que é poesia? Como fazer poesia?

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

Não há nada de novo sob o Sol

*Graduando em Arquitetura e Urbanismo pelo Mackenzie

Desconfie de algum discurso que diz sobre a originalidade das coisas. Agora, desconfie muito de alguém que se autointitula original. Na dúvida, nunca ninguém é assim tão original e ninguém inventou nada. Defenda o clichê: na vida, nada se cria, tudo se copia.

Existe uma atmosfera no campo do conhecimento artístico de que o valor de um artista se dá pela originalidade de sua obra. Isso acontece de modo geral, e é super valorizado na arquitetura, artes plásticas, música, dança, e qualquer outro tipo de arte. Quanto mais diferente for a performance, maior é o prestígio do seu criador.

Balela. Somos tão influenciados por tudo o que vemos, ouvimos e sentimos que nada vem da gente. Pior do que alguém acreditar que um dia um homem criou algo, é o artista acreditar que foi realmente ele quem o criou. Nossas referências vêm sempre de experiências. 

Para ilustrar isso, trouxe alguns exemplos de edifícios que foram feitos em diferentes épocas. A gente pode reparar que releituras são feitas a partir do uso de novos materiais, novas tecnologias construtivas e pequenas intenções estéticas diferentes. Peço que prestem atenção nas datas dos edifícios e na solução que eu destaquei em cada um deles. São seis edifícios, e eu comparo em três pares, ou seja, os dois primeiros, os dois do meio e os dois últimos.







Então, se algum arquiteto disser que criou algo, desconfie!

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

NILTON CARVALHO

*Artista plástica e contadora de histórias
Olá pessoal, tudo bem? Esta semana falaremos sobre o artista Nilton Carvalho, que tem formação acadêmica superior em Ciências Físicas e Biológicas, mas que tem como grande paixão as artes plásticas. Por isso, fez vários cursos livres ligados à área de artes plásticas:

1989 – CURSOS DE ARTES – ARTE ESPAÇO – MÁRCIA PORTO – ARAÇATUBA
1990 – PRÁXIS DO FAZER ARTÍSTICO – SENAC – DELIMA MEDEIROS
1992 – A ARTE COMO EXPRESSÃO HUMANA –Y. SHIMIZU
1993 – MOMENTOS DE ARTE – MANABU MABE-S.P.
1993 – ARTE PARARREALISTA – SÃO PAULO – ALZIRA APPOLO
1994 – 30 ANOS  + 1 – SENAC – BARAVELLI
1995 – COMO ANALISAR UMA OBRA DE ARTE – ANTONIO SANTOR JUNIOR
1995 – HISTÓRIA DA ARTE – ARNALDO APARECIDO FILHO
1998 – POÉTICA NAS ARTES VISUAIS – OSMAR PINHEIRO –APLA
1999 – PÓS MODERNIDADE – ARNALDO APARECIDO
1999 -  A ARTE DE VER A ARTE – ARNALDO APARECIDO FILHO

Entre os artistas renomados pelos quais tem admiração e que influenciaram em seu trabalho gosta de citar Monet, Degas, Rembrandt, Van Gogh, Pollock, Ianelli, Manabu Mabe, além de outros vários. 

Participou de muitas mostras de exposições, tanto individuais quanto coletivas, entre elas:

1991 – ARAÇARTE – TEATRO S. JOÃO – ARAÇATUBA
1991 – COLETIVA REGIONAL DE ARTES – ARTE ESPAÇO – ARAÇATUBA
1991 – COLETIVA REGIONAL DE ARTES – ARTE ESPAÇO – ARAÇATUBA
1992 – XII SALÃO DE ARTES – SÃO JOSÉ DO RIO PRETO
1992 – FEIRÃO DE ARTES – ARTE ESPAÇO – ARAÇATUBA
1992 – ARAÇARTE – SECRETARIA MUNICIPAL DE CULTURA – ARAÇATUBA
1993 - XIII SALÃO – SÃO JOSÉ DO RIO PRETO
1993 – ARAÇARTE – BIBLIOTECA MUNICIPAL – ARAÇATUBA
1993 – COLETIVA DE ARTES PLÁSTICAS – ARTE ESPAÇO – ARAÇATUBA
1993 – ARTE PARARREALISTA – BIBLIOTECA MUNICIPAL – ARAÇATUBA
1994 - AGITO CULTURAL – SALESIANO – ARAÇATUBA
1994 – FESTIVAL DE INVERNO – TEATRO S.JOÃO – ARAÇATUBA
1994 – SEMANARTE –BIBLIOTECA MUNICIPAL – ARAÇATUBA
1994 – ARTE PARARREALISTA – INDIVIDUAL – JORNAL NOVA IORQUE
1995 – NOSSOS ARTISTAS – ARTE ESPAÇO – ARAÇATUBA
1995 – NOITE DAS AMÉRICAS – EEPG.PROF. ALTINA ARANTES – ARAÇATUBA
1995 – 5º SALÃO DE ARTES PLÁSTICAS – SÃO BERNADO DO CAMPO
1995 – 2º SALÃO OFICIAL DE ARTES – CATANDUVA
1995 – INDIVIDUAL – POÉTICA – ARAÇATUBA SHOPPING CENTER
1996 – SEMANARTE – BANCO BANESPA  - ARAÇTUBA
1996 – PROJETO ARTE SACRA – ARAÇATUBA SHOPPING CENTER
1996 – MAPA CULTURAL PAULISTA –FASE MUNICIPAL –ARAÇTUBA
1996 – INDIVIDUAL –REFLEXOS INTERIORES – ARAÇATUBA SHOPPING CENTER
1997 – INDIVIDUAL –NÓS, O TEMPO... – MULTISHOP – ARAÇATUBA
1998 – SALÃO DE ARTES CONTEMPORÂNEA – RIBEIRÃO PRETO
1999 – INDIVIDUAL – GALERIA DAS ARTES –LONDRINA-PR
1999 – SALÃO DE ARTES PLÁSTICAS DE SANTO ANDRÉ – S. P.
2000 – INDIVIDUAL – ARTE PARARREALISTA – GUARUJÁ – S.P.

Sua produção é moderada, atualmente, em função da falta de espaço para mostrar os trabalhos. Como forma de suprir esse déficit, mantém uma galeria na internet.

Para Nilton a Arte foi definida cem mil vezes: é o belo, o verdadeiro, o bem. A música, que é um dos ramos da Arte, está inteiramente no domínio da sensação. A sensação se produz no homem quando este compreende a Arte de duas maneiras distintas, mas estreitamente ligadas; a sensação do pensamento que tem por conclusão a Filosofia e, depois, a sensação que pertence toda ao coração.

A arte pura é a mais elevada contemplação espiritual por parte das criaturas. Ela significa a mais profunda exteriorização do ideal, a divina manifestação desse “mais além” que polariza as esperanças da alma.

No mundo, a Arte está num estágio e valoração do artista e das obras.

No Brasil, a dificuldade está na educação, na arte de ver a arte.

Em Araçatuba, quando da existência da APLA, experimentaram um período fértil onde reuniram um número de artistas e que puderam usufruir de cursos e mostras constantes aproveitando os poucos espaços existentes.

Geradores de artes deveriam estar ligado a elas com conhecimento suficiente para valorizá-las, a exemplo das associações que foram criadas, mas que viveram dificuldades por falta de interesse das administrações públicas, quanto da sociedade em geral.

Para o artista, "o mundo precisa de Arte porque Arte é vida". Nilton produz livremente, conforme a vontade, e é lógico, dentro das técnicas e conhecimento adquiridos. 

Para Nilton, seu trabalho é uma atividade paralela que está mais no nível do “prazer” e autorrealização. O artista usa de alguns mecanismos para divulgar o seu trabalho: mostras, sites, blogs... Ele considera muito importante o artista dialogar com o público.

Abaixo, algumas de suas obras:




quarta-feira, 28 de agosto de 2013

CISNE NEGRO

*Professora universitária e mestre em Mídias Digitais
Na última semana do mês de agosto e da série "Um pouco mais de..." vamos homenagear todos os profissionais da Psicologia. E para representá-los, dedico o tema de hoje ao Psicólogo Leonardo (Léo), meu genro querido. Em minha opinião, o relacionamento com um(a) psicólogo(a) é importantíssimo para nos ajudar a materializar nossos sentimentos que, às vezes, não conseguimos sozinhos. Longe de definir aqui esse profissional maravilhoso, vou tentar mostrar como algumas ferramentas nos ajudam a fazer uma reflexão e a nos conhecer um pouco mais. Eu tenho certeza de que você é melhor e mais bonito do que imagina, apenas ainda não se conhece por inteiro.

Então vamos lá, conhecer um pouquinho mais de como os filmes, podem nos ajudar e em especial o CISNE NEGRO.


Os filmes são uma forma de contar história e Cisne Negro não foge à regra. Foi um presente de Darren Aronofsky, que dirigiu o suspense psicológico e obteve as melhores críticas, além dos prêmios de Melhor Atriz e Diretor.

No filme Natalie Portman é Nina, moça dedicada que leva a profissão de bailarina de forma bastante séria, disposta a dar tudo de si e se vê imersa numa roda de intrigas quando é cogitada para interpretar um papel duplo no clássico russo de Tchaikovsky, O lago dos Cisnes. Seu professor e mentor, Thomas Leroy (Vicente Cassel, que arrasou na performance), exige que ela interprete os dois papéis principais. Nina, fica obcecada, tenta provar a todos, e ao seu mestre, sua capacidade e inicia uma jornada dura consigo mesma. 

Busca dentro de si o que precisa para interpretar os dois papéis distintos: o sensual e tórrido, o branco e o negro. 

O desejo de não decepcionar é tanto que Nina não percebe a incompatibilidade que surge com a chegada de Lily, que se torna sua rival. Nina também não reconhece e não consegue perceber que enfrenta outro problema: ela busca superar-se no relacionamento com a mãe Erica (interpretada brilhantemente por Barbara Herhey), que ainda a trata como uma criança, sufocando-a com a falta de privacidade no dia a dia.

Erica representa o lado adulto da situação e isso fica claro no roteiro, onde Nina abusa do preto em seu figurino e no seu quarto. É a sua maneira de contrariar a mãe, por ser sufocada por ela e não consegue desenvolver uma vida adulta.

Dessa forma, Nina se consome diariamente e tenta manter isso em seu interior para que ninguém perceba. As marcas começam a aparecer em seu corpo, e isso assusta sua mãe, que percebe que tudo surgiu após Nina aceitar o papel duplo e tentar se superar.  Além de sua mãe e Lily, Nina também encontra uma ameaça quando observa o futuro, no exemplo de uma brilhante bailarina (Beth) que, forçadamente, foi afastada para dar lugar às novas bailarinas; isso a leva a ver a situação como um espelho do futuro, do mundo de cobiça que existe entre as bailarinas que estão dispostas a se autodestruir para atingir o topo da carreira.

E, nesse contexto, Nina busca dentro de si a base para os dois papéis: o cisne branco e o negro. Ela tenta encontrar dentro de si seu lado inocente, puro e gracioso do cisne branco e, ao mesmo tempo, o seu lado sensual, infiel, sórdido que a prende, no cisne negro. Nessa busca pela liberdade, a redenção é alcançada ao final do filme. Natalie Portman mostra que é uma das melhores atrizes de sua geração e se entrega nessa interpretação magnífica. E um fato curioso, e que com certeza a ajudou muito neste papel tão complexo, foi ter cursado Psicologia em Harvad.


O filme fisga e leva o espectador a mergulhar no interno de cada personagem, numa história sobre a profissional que se sacrifica em excesso e a obsessão pela perfeição que beira o exagero, mostra-se apenas como a ponta do iceberg de um filme que tem muito a oferecer. É um suspense psicológico luxuoso, nada de assassinos ou casas mal assombradas, busca o realismo em todos seus aspectos, seja nas imagens ou no som das batidas das asas do cisne. 

O espectador não fica ileso, é uma viagem intensa pelo lado sombrio do nosso interior e permite um exercício de busca de conflitos e de como podemos iniciar um processo de libertação. O filme não se enquadra para qualquer público, mas quem o assistir e se permitir ser tocado pela história, eu garanto, vai gostar. Vai lá, vasculha ai dentro e encontre seu Cisne Branco e o Cisne Negro e claro, alimente o que vai te ajudar a ser uma pessoa melhor, a fazer o bem sempre! 

Bem, por enquanto é isso, parabéns aos Psicólogos e até a próxima semana...

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Grafite: uma linguagem subversiva

Jornalista e escritor
A Praça Abano Ventura, também conhecida como “Praça da Juventude” ou “Praça do Skate” é um dos lugares mais frequentados pela população araçatubense e região, não somente nos finais de semana – quando fica mais cheia, mas também ao longo da semana. É comum passar pelo local as dez ou onze horas da noite e encontrar jovens por lá, com seus skates, pendurados ao vento, em manobras radicais.

Passei lá por esses dias e vi alguns grafites sendo iniciados na pista. Gosto muito da linguagem “street” de arte: a expressividade das formas, a inquietude/protesto intrínseco a ela, as cores fortes e vibrantes, a mistura de técnicas de pintura a óleo e látex, o grafismo que imiscui legibilidade e codificação, sugerindo o clandestino e enigmático da arte que lhe deu origem.

O que antes era tido como “marginal” – no sentido pejorativo da palavra –, hoje é objeto de admiração de muitos, inclusive do chamado “primeiro mundo”, que escancarou as portas de galerias e museus renomados para acomodar nomes como “Os gêmeos” (dupla de gêmeos formada pelos paulistanos Otávio e Gustavo), Trans (Inglaterra), Daim e Belin (Alemanha), Aryz (Espanha), Eric Grohe (EUA), Smag (Escócia) e, aqui em Araçatuba e região, artistas como Fella, Cogumelo, Tass Dias, entre outros.

Veio-me, também, ao contemplar a cena, o episódio ocorrido há alguns meses em nossa cidade, em que ordens expressas foram dadas para cobrir uma pintura em grafite, nos muros do Instituto Educacional (I.E.), sob o argumento de estimular essa ou aquela atitude inadequada nos jovens.

Mesmo que o grafite, hoje, passe por um processo de “aceitação” é natural que se guarde o substancial dessa linguagem, ou seja, o questionamento, a indignação, o contraditório etc... Ou será que até as artes passam por esse processo de “aburguesamento” e alienação? (peguemos a trajetória do teatro e da música clássica como exemplos disso).

Vejo com bons olhos os caminhos pelos quais a arte vai trilhando através dos tempos. Mas também enxergo com ressalva determinados ditames impostos à expressão artística, seja sob o argumento do “patrocínio”, seja sob o álibi da “boa vizinhança”. Toda e qualquer expressão de arte, por mais “burguesa” que seja, a meu ver, tem que exprimir o contraditório, tem que elevar seus fruidores a um patamar de reflexão diferente dos que estão acostumados e submetidos. É desse modo que músicas, pinturas, peças, formas arquitetônicas etc. se perpetuam e sempre têm algo para “dizer”, seja a que geração for.

Que os meninos da “Praça do Skate” continuem com suas irreverências, com seu modus operandi de ser. Que a linguagem que usem por lá - seja em forma de manobras radicais ou de grafites - promova a reflexão da sociedade na qual vivemos. Para o bem ou para o mal.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Morricone e sua maravilhosa música

*Professora de música e regente, formada pelo Conservatório de Tatuí/SP.

Quem me conhece sabe de minha paixão pela obra de Ennio Morricone. Aos poucos fui conhecendo suas composições e arranjos e fui tocada de forma surpreendente. Talvez pelo maravilhoso casamento entre o som e a imagem que Morricone é capaz de fazer. Ennio Morricone, compositor, arranjador e maestro italiano, nasceu em 10 de novembro de 1928. Compôs trilhas para mais de 300 filmes.

Música é assim, não sabemos ao certo, mas algumas canções tocam mais nossas emoções e, assim, vem a admiração pelo compositor.

Lembro-me da primeira vez em que ouvi “Cinema Paradiso” – trilha do filme de mesmo nome de 1988; eu a ouvi repetidamente por 13 vezes e meu encantamento só aumentou. Para mim é uma das mais belas melodias que já ouvi. Recentemente, lembrei-me de um arranjo dessa canção para trompete e violoncelo e desejo compartilhar com vocês. Aqui, Cinema Paradiso tocada em um show de Chris Botti (trompetista) realizado em 2009 e que teve a participação de vários músicos e para essa música contou com o renomado violoncelista Yo-Yo Ma:


Compartilho também uma execução com orquestra regida pelo próprio Morricone: “Cinema Paradiso” – “In Concerto - Venezia” (2007):


Não posso deixar de mostrar a vocês uma versão dessa música que gosto muito de cantar e, aqui, cantada por outro músico da minha coleção de preferidos, Josh Groban. É maravilhosa!  Josh Groban – “SE” – “Cinema Paradiso”:


Um filme, em que sua obra destaca a beleza das cenas de forma magistral, é o “The Mission” – A Missão, de 1986. Essa música que vou agora, vocês já devem tê-la ouvido em casamentos, cantada por corais: “Gabriel’s Oboe”. Vamos conhecer a composição original – instrumental – na cena do filme. Para quem quiser, é uma dica de filme – a história e a trilha sonora são envolventes. The Mission - Gabriel's Oboe: 


A seguir, temos uma versão com coro, cantando em “humming” a estrutura harmônica e um oboé tocando a melodia. Lindo também!

Há uma versão dessa música com letra em italiano - chama-se “Nella Fantasia”. Vamos ouvir na interpretação por Sarah Brightman:


Ennio Morricone foi nomeado pela Academia de Hollywood para cinco Óscares de Melhor Trilha Sonora entre 1979 e 2001, não tendo vencido nenhum deles. Em 2007 ele recebeu pelas mãos de Clint Eastwood um Oscar honorário “Pelas suas magníficas e multifacetadas contribuições musicais”. 

Termino nosso papo de hoje compartilhando uma excelente reportagem sobre esse grande compositor: 
Gilberto Smaniotto conta a história de Ennio Morricone em uma reportagem maravilhosa: 


Até a próxima semana, queridos. Um beijo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Bagdá Café: mezze da família


*Professor universitário e mestre em Turismo e Hotelaria
Das “mil e uma noites” aos 20 anos de funcionamento na cidade de Araçatuba (SP), o Restaurante Bagdá Café é o que melhor representa a cultura gastronômica do Oriente Médio no noroeste paulista. Esta culinária é uma mistura de diferentes civilizações, incluindo as que não pertencem, necessariamente, ao mundo árabe, a exemplo da culinária Mediterrânea, a culinária do Magreb (norte da África) e as cozinhas do Irã, Armênia e Israel.

A culinária de um país reflete sua história, hábitos e costumes! Devido à proximidade entre os países de mesmo idioma “o árabe” e o clima da região banhada pelo mar Mediterrâneo, Vermelho e Golfo Pérsico, conferem características muito semelhantes, porém uma variedade bastante rica, a exemplo do Líbano, um dos menores países do médio oriente que possui um dos maiores cardápios do mundo, onde são comuns os legumes recheados, principalmente abobrinha e berinjela, muitas especiarias e temperos típicos: pimenta-síria, snoobar (pinoli), zaáhtar etc. Os pratos são muito aromáticos e cuidadosamente adornados por vegetais frescos, sementes, coalhada, hortelã e azeite.

É neste contexto histórico e cultural que se inicia a trajetória do Bagdá Café. Imigrantes libaneses, D. Zahia e Sr. Husni, vieram para terras brasileiras e tiveram seis filhos. Consagrando o talento culinário, “herança familiar”, inauguraram em agosto de 1993, na Rua General Osório, 147 – centro da cidade, um estabelecimento de comida tipicamente árabe. Idealizado pelo filho Mohamed Husni Choucair, juntamente com os pais e três de seus irmãos, começaram ali o próprio negócio. Sua mãe, D. Zahia era quem preparava o “pão folha” e comandava a cozinha.

No início, o restaurante funcionava todos os dias da semana e o serviço era “a la carte”; Mohamed fazia por encomenda o famoso carneiro recheado inteiro e, em meio a muito trabalho e dedicação, o estabelecimento foi congregando amigos e uma cativa freguesia que aprecia a saborosa comida árabe e seus doces. Com o passar do tempo e os filhos já formados e casados, havia rumores da família fechar o estabelecimento. Entretanto, em junho de 2002 o Chef Mohamed, que em nove anos aprendera tudo com a mãe, assume com sua esposa Luciana o comando do restaurante que se estende até os dias atuais.

A casa é modesta e o espaço destinado ao salão é pequeno e acolhedor, na entrada um arco e treliça em madeira nos remetem aos palácios árabes, toalhas brancas em linho ressaltam a limpeza e enaltecem a tradição da cultura alimentar. Sempre presente nas mesas, uma especialidade da casa é servida gentilmente “geleia de pimenta” e o “pão folha”.

O serviço é self service a quilo e o cardápio bem característico. Assim como numa típica refeição libanesa, que se começa com Mezze (aperitivos saboreados delicadamente com a ponta dos lábios), os pratos frios são servidos no primeiro balcão: o tabbuleh; a salada de berinjela; de damasco; fattush (salada com crostini, pepino, tomate e hortelã); queijo chanchiche; kibbeh naye (quibe cru); salada de lentilhas; charuto folha uva no azeite; coalhada fresca com pepino; coalhada fresca com hortelã; coalhada seca; Hommus (pasta grão de bico); baba ghanouj (pasta de berinjela); salada de grão de bico com tahine; pão folha recheado de berinjela, ricota e escarola; coalhada seca temperada; e berinjela recheada de alho e amendoim em conserva. Todos feitos de maneira impecável!

Os pratos quentes despertam ainda mais a fome: arroz com macarrão aletria; arroz com lentilha; arroz com carneiro, uva passa e amêndoa; esfias quentinha de carne; esfiha aberta de carne; de escarola; de coalhada; quibe frito; quibe assado recheado com muçarela e carne moída; lasanha de berinjela com carne moída; lasanha de pão sírio, brócolis e ricota; carneiro assado com batatas; kafta; abobrinha recheada; charuto de folha uva; charuto de repolho; capelete na coalhada; linguiça de carneiro; quibe frito de carneiro; quibe na coalhada. Além deste verdadeiro banquete árabe a sua inteira disposição, você pode pedir os grelhados carré e picanha de cordeiro, acompanhados de cebola e tomate.

Para extrapolar as necessidades calóricas diárias, os doces árabes são de enlouquecer!  Burma, belewa, mamuh, halewee, ninho e raha feitos com pistache, damasco, gergelim, amêndoas, semolina, macarrão aletria e regados com uma doce calda aromatizada com água de rosas e/ou água de flor de laranjeiras, além de doces importados do Líbano podem te surpreender.


Os proprietários já anunciam que em breve o restaurante funcionará em um novo endereço com um espaço físico maior e ambientado sem perder, é claro, a cordialidade e simpatia que sempre atendem a clientela considerada por eles suas maiores alegrias com o propósito de servir sempre como manda a tradição das refeições preparadas como o centro dos encontros familiares e círculos sociais.

Até logo! Quem sabe almoçaremos juntos algum dia desses no Bagdá Café ou algum outro restaurante especial que apresentaremos nos próximos artigos.

SERVIÇO: O horário de funcionamento é de terça-feira a sábado, das 11h às 14h30. Não aceita cartão. Fone para encomendas: (18) 3624-1697. Facebook page.

sábado, 24 de agosto de 2013

Leitura e escrita: construção de significados

*Professora da Educação Básica e mestranda em Educação pela Unesp
É fato que a escrita trouxe imensas vantagens e consideráveis avanços para as sociedades que a adotaram, visto o lugar especial que aquelas ditas letradas reservaram a esta forma de expressão, tornando-a praticamente imprescindível no mundo contemporâneo. Lembrando que o letramento é um processo independentemente da própria escolarização formal. Nossa sociedade não é homogênea em relação ao letramento.


Marcuschi (2001) em seu texto Oralidade e letramento, relata que talvez o caminho mais sensato no tratamento das correlações entre formas linguísticas, contextualidade, interação e cognição das semelhanças e diferenças entre a fala e a escrita seja nas atividades de formulação textual-discursiva.

A oralidade jamais desaparecerá, sempre será o grande meio de expressão e de atividade comunicativa, ao lado da escrita. A oralidade é inerente ao ser humano e não será substituída por nenhuma outra tecnologia. 

O processo da leitura pode ser definido de várias maneiras, dependendo não só do enfoque dado, mas também do grau de generalidade com que se pretenda definir o termo. Como definição geral, a leitura é um processo de representação que envolve o olhar “algo” e ver outro, portanto, isto é possível por meio do conhecimento prévio. Também é possível a leitura através de sinais não linguísticos, pois, lê-se também o mundo que nos cerca.

                                                                               
Em contrapartida, há duas definições restritas de leitura. A primeira refere-se a “ler é extrair significado do texto” e a segunda, “ler é atribuir significado ao texto”, assim, num caso o leitor contribui com aquilo que o texto não tem, no outro, com aquilo que o texto já tem. 

Na complexidade do processo de leitura importa a interação entre leitor e texto. Leitura implica uma correspondência entre o conhecimento prévio do leitor e os dados fornecidos pelo texto.

O texto desperta impressões e sensações. As obras de ficção proporcionam ao pequeno leitor vivenciar as emoções das histórias, estimulam a imaginação e permitem o desenvolvimento de uma visão mais crítica. Ouvir um texto para a criança que ainda não sabe ler convencionalmente já é uma forma de leitura.


De acordo com Jean Marie Goulemot (1996), “Ler é dar um sentido de conjunto, uma globalização e uma articulação aos sentidos produzidos pelas sequências. Não é encontrar o sentido desejado pelo autor [...]”. 

Portanto, a leitura é um processo de aprovação e de troca. A cada leitura, o que foi lido muda de sentido, torna-se outro. Isto é uma forma de troca. As relações com o livro dão-se por meio das atitudes do leitor. Somos inclusive um “corpo leitor” que cansa. Nosso corpo lê não somente pelo viés de nossos olhos.

O ato de ler é cultural e social. Ler é fazer emergir a memória de leituras anteriores e de dados culturais. 

Leitor e autor se dialogam. A leitura é uma atividade interlocutiva. O indivíduo transforma-se, aprendendo a ler e a escrever, construindo significados, isto implica construir conhecimentos. O Homem faz significar-se por meio do texto. Os textos que lemos têm que ter um ponto em comum, um posto de intersecção com o nosso repertório. Atuamos como leitores de nós mesmos. Quando o nosso repertório não é suficiente para a compreensão, faltam-nos conhecimentos para preencher as lacunas deixadas pelo autor no texto. Deve haver um acordo de cumplicidade entre o autor e o leitor.

Bem, reflita sobre os “fios tecidos” pelo texto de hoje e que lhe oferecem “novos fios” para você “tecer” o seu texto sobre este assunto!

Querido leitor, até a próxima!

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

O que acontece em Bauru, fica em Bauru!

*Graduando em Arquitetura e Urbanismo pelo Mackenzie
Réplica da estátua colocada pela loja Havan. Foto: Folha de S. Paulo
Recentemente li uma reportagem na Folha de S. Paulo sobre uma estátua que foi colocada em frente a uma famosa loja de departamentos que, por acaso, já foi tema de discussões dessa coluna. Na matéria, datada em 05 de agosto desse ano, moradores da nossa cidade vizinha Bauru, protestavam contra a colocação de uma “estátua da liberdade” em frente a loja Havan. Mas antes de qualquer comentário sobre o acontecido, vamos esclarecer três coisas.

Primeiro: não existe qualquer crítica contra a marca Havan. Esta postagem não é endereçada à empresa, aos produtos, muito menos aos funcionários da loja. Segundo: este texto também não se opõe a estátuas, monumentos ou esculturas gigantes. Acredito que estes elementos, em contextos certos, podem agregar muito valor à paisagem urbana. Também não trata de discutir juízo de valor. A estátua da liberdade é uma obra de arte, e ponto. Terceiro: por mais que eu tenha ressalvas à cultura americana, este texto também não é um manifesto político. Trato aqui somente da questão da arquitetura. Isso posto, podemos seguir a reflexão sobre o fato.

Não bastasse o mal gosto do próprio edifício, a Havan agora quer aumentar o estrago enchendo a cidade de souvenir gigante. Essa intervenção, como educadamente eu vou me referir, além de não ter qualquer propósito, não contribui em nada para a paisagem urbana. A construção de cenários e simulacros urbanos já é bastante problemático por si só, mas quando o fazemos com signos que nada têm a ver com a realidade local, isso se torna excessivamente problemático.

Na matéria que mencionei, os moradores indignados fizeram um abaixo-assinado para que a prefeitura tome providências diante dessa intervenção. Com toda a razão, eles temem que a imagem da cidade seja confundida com a réplica da estátua."Quando me deparei com aquela réplica gigantesca, na minha opinião de mau gosto, descaracterizando e chamando toda a atenção na entrada da cidade, senti um certo constrangimento", disse o advogado Fabio Galazzo.

Alguém pode me responder o que os bauruenses têm a ver com uma réplica do pelo presidente francês ao governo americano? O que isso significa para a população local? E se o hipermercado ao lado da loja resolver erguer uma réplica da Torre Eifel? E se o teatro em frente resolver erguer uma esfinge em tamanho real? E se o prefeito resolver construir um Cristo Redentor em qualquer rotatória pela cidade?

Nós estamos falando de uma cidade! Isso não é uma "mesa de centro da sala da vovó" onde a gente põe os retratos, o vaso com flor, o souvenir, o artesanato da netinha etc... Para mim, isso tudo tem a ver com o que nós já discutimos em outra publicação. São os signos de prestígio que alguns empreendedores nos empurram, na tentativa de nos convencer de que tal edifício não é qualquer edifício. Esse jogo forçado, põe os desinformados a acreditar que, ao comprar em lugar que tem uma Estátua da Liberdade na frente, passam a pertencer a um extrato social elevado, rico, americanizado. É a sensação de participar do universo do consumo. Essa atitude dos empreendedores é, no mínimo, desonesta, pra não dizer antiético.

Eu lamento por Bauru estar passando por isso. Torço para que nossos vizinhos consigam eliminar essa intervenção da paisagem da cidade. Mas temo mais ainda que essa moda se espalhe e chegue até Araçatuba. E ainda sem entender muito, eu me pergunto: de duas, uma: ou nossas cidades viraram a Disneylândia, ou mudaram o nome da cidade de Bauru para Las Vegas. 

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

MASSATO ITO

*Artista plástica e contadora de histórias
Massato Ito
Olá pessoal, tudo bem? Nosso entrevistado de hoje é multifuncional e artista autoditata. Estamos falando de Massato Ito.

Massato é formado em Direito, Letras e Estudos Sociais pela Instituição Toledo de Ensino. Apaixonado pelas artes de modo geral, tem predileção por John Dennis Howard, americano, araçatubense de coração, que dedicou-se à pintura, abstracionista no início e, posteriormente, fazendo o caminho inverso, figurativo, passando a utilizar em sua pintura elementos do grafite.

Reconhecido como  o “ introdutor do grafite no Brasil”, “ dinossauro do grafite”, durante muito tempo, John Howard influenciou  o meio artístico araçatubense com suas ideias, que subverteram a ordem estabelecida, muitas vezes escandalizando a mentalidade provinciana, inculta e conservadora da sociedade local, que contava com algumas figuras interessantes, diria brilhantes, ligadas  às artes literárias ou que se metiam a fazer jornalismo independente, (tabloides e periódicos universitários). Elite com alguma experiência jornalística, saída dos jornais da cidade, de jornais universitários, ou de São Paulo, como o Rui Barbosa (Folhetim do Diretório Acadêmico da FOA),  Hugo Higushi,  do Estadão, (este deixou um emprego garantido,  para praticar  um jornalismo utópico , sem se sujeitar a cabrestos ou a restrições – aí me incluo, pois também participei fazendo  toda a arte do jornal conhecido como “ Novotempo”). Outro jornal  “O Tabloide” também circulou por um período, sob a batuta de Reinaldinho Penteado, promotor com espírito de artista, que experimentou o teatro, dedicando-se posteriormente à música, chegando a compor e a tocar bateria.

A intelectualidade local era ainda composta por personalidades ligadas ao teatro como, Darley Miranda, Agostinho, Clarismindo de Castro, Donosor Negrão, Aldo Bucchi, Nelson Peito de Pomba,  Ataliba Sanches,  Zé Preto,  Paulo Grobe, Cido Sério e Cidinha Lacerda, Carlos Henrique dos Santos (o Carlão) e Suely Mendes  (que embora não atuassem no meio artístico, foram importantíssimos, segundo Massato, em sua formação, pois o influenciaram com o bom gosto musical deles).

A presidente Dilma recebendo uma peça do artista em uma de suas visitas a Araçatuba
"Eu nunca tive toca-fitas, vitrola ou coisa semelhante, mas era amigo e padrinho de casamento do Cido Sério, que tinha uma boa coleção de discos, frequentando a casa dele e de outros amigos; fui assim sendo apresentado à musica popular brasileira de qualidade, pois todos tinham bom gosto musical", confidencia o artista. Teve influência  do César Menezes e, sobretudo,  do Carlão; este  era  quem descobria  e apresentava os grandes músicos, cantores, compositores... (e até hoje é assim!) que são invisíveis na mídia nacional. Portanto "tudo o que eu ouvia já vinha com garantia, com  'selo de qualidade', pois já havia passado pelo crivo do Carlão", comenta Massato.


Não fossem eles, o artista disse que só ouviria Beatles, Rolling Stones, Bob Dylan, Simon & Garfunkel, Alice Cooper, James Taylor... O César Menezes (Cesão, como era conhecido) já tocava violão muito bem e pacientemente acompanhava Massato nas cantorias, que tinham por repertório esses cantores mencionados antes, além de Caetano, Gil, Alceu Valença, Paulinho da Viola, Djavan etc.

Quanto ao envolvimento com o teatro, até hoje, é de se mencionar que a  cidade contou com até uma dezena de grupos de teatro, praticando essa arte sem qualquer formação específica. Volta e meia pintavam algumas oficinas, como a que fizeram com o grande Vladimir Capela, e que durante uma semana, os concedeu o privilégio de conviver com a sua genialidade. Ainda não havia sido consagrado, como o foi posteriormente, fazendo teatro para criança.


Massato recorda, até hoje, de quando ele conquistou todos os melhores prêmios de teatro (da APCD... Associação Paulista de Críticos de Dramaturgia, Prêmio Mambembe, Schell, etc...). O artista enfatiza que está se referindo aos seus contemporâneos e a uma geração nova subsequente. Posteriormente surgiu uma nova geração de músicos e, sobretudo no teatro, temos que registrar a atuação de Alexandre Melinsky, graças a quem temos hoje um público cativo, consumidor da arte teatral. Surgiram também novos dramaturgos e diretores de teatro, dentre os quais destaca o Laerte Júnior.

Também tinha os aficionados por cinema, que mantinham cineclube, frequentado por meia dúzia de pessoas ou, ainda, artistas que se expressavam  através da música, como o talentosíssimo Magno Martins, que além de músico,  também fazia teatro (era dramaturgo, produzia os próprios textos, dirigia a montagem, participava como ator, cenógrafo e figurinista. Magno contava com uma “entourage”, séquito de fãs que o acompanhavam  e o aplaudiam em festivais, dentre os quais, o maior Tiete era o Cido Sério, além do Querô, Cesão, Dé, Help, Eugênio ...rsrs), e  outros músicos, “com vida própria”, como,  Mauro Rico, Eugênio Thereza,  César Menezes, e principalmente,  Zé Renato, (José Renato das Neves). "Com relação ao Zé Renato, embora hoje pouco relacionamento tenhamos, foi das pessoas que mais acreditaram em mim e me promoveram, e sou-lhe imensamente grato por ter, por exemplo,  tocado, juntamente com os “Flautimbandos” (orquestrinha de  instrumentos de sopro formado  só de molecotes, que hoje são estrelas de primeira grandeza), no meu “vernissage” de inauguração da Itaú Galeria de Penápolis. (Exposição de Esculturas)", destaca Massato.

Busto de Pe. Veira feito em argila
Para Massato, Zé Renato foi importantíssimo na formação musical de muitas estrelas de primeira grandeza da música, que hoje brilham no cenário nacional,  instrumentistas,  que tocam ou tocaram com Seu Jorge, Bocato, Roberta Miranda, Zezé de Camargo, e com  diversos outros cantores sertanejos, ou músicos eruditos  que tocam, até hoje,  em orquestras e bandas sinfônicas de renome. (Celsinho tocou saxofone com vários sertanejos, como Roberta Miranda, e hoje é professor nas melhores escolas de música do país); Marcão Pedroso (clarinete e saxofone, na Banda Sinfônica de São Paulo, além de tocar em quarteto, cuja apresentação só viu no Jô Soares) igualmente dedicando-se  ao ensino musical; Márcio Negri (liga a tevê no Faustão, a  que raramente assiste e o vê   tocando com o Seu Jorge, depois tocou com Bocato) ; Geraldo Olivieri, (músico também de orquestra famosa); Cláudio Torrezan (contrabaixo na OSESP), Paulinho Pianista (este renomado  músico e arranjador, de artistas famosos, mas não chegou a ser aluno do Zé Renato).

Ainda quanto aos artistas pelos quais tem admiração, cita Gauguin, Kandinsky, Cézanne, Van Gogh, (que são coloristas fantásticos, além de desenhistas incríveis, gênios), Picasso, pela versatilidade,  Paul Klee, Pollock (só de assistir a forma dele pintar é um deleite). Admira, todavia, também, a arte rústica, insana,  do brasileiro  Arthur Bispo do Rosário, toda ela produzida enquanto interno em manicômio. "E admiro Arthur do Rosário, exatamente pela sua espontaneidade, liberdade de criação, ausência de vínculo com a sociedade e até mesmo com a realidade", destaca Massato. O artista produzia a sua arte para si mesmo, sem a preocupação de ganhar dinheiro, ou  de conquistar a fama, criando de  maneira, peculiar, e foi certamente um dos  mais versáteis dentre  os artistas brasileiros.


"Quanto à  influência em minha arte (sobretudo em minhas esculturas), embora seja autodidata e tenha sempre rejeitado 'influências'  reconheço a de um outro doido, que conheci em hospital psiquiátrico de Marília, aonde fui para me formar como 'instrutor de formação de mão de obra' para ministrar um curso conhecido como TWI  - Training Within Industry. Ali tive conhecimento de um excepcional trabalho oferecido por um hospital espírita, onde existia uma oficina de cerâmica, além de outras oficinas, como de pintura, carpintaria, artesanato, rádio, jornal etc.", testemunha Massato.

Um dos ceramistas era um alienado mental, mas que se tratava de um artista de notável habilidade - ele produzia cerâmica e modelava vasos  sem o auxílio de torno, o que é dificílimo. Massato observou que ele utilizava de relevos nesses vasos, acrescentando  detalhes minuciosos, arabescos, reproduzindo cenas do antigo Egito,  técnica a que Massato passou a aplicá-la sem tanto receio,  adicionando detalhes (relevos) que  me dessem a certeza de que não desgrudariam no processo de  queima  da argila.


Participou de diferentes mostras, entre as quais Mostra coletiva no Senac de Araçatuba... (menção honrosa); Coletiva em Penápolis com Maurílio Gallopi dos Santos (escultura em madeira e entalhe), Marcos Fillipin (xilogravuras), José Henrique Soares Domingues (fotografia), Veleida Fona (pintura); Individual de Escultura, na Itaú Cultural de Penápolis; Vieira Vida e Obra, no Museu Pateo do Collegio (esculturas e assemblagens em papel, capa de livro) de outubro de 2008 a fevereiro de 2009; Exposição de Charges sobre Orquídeas em Belo Horizonte (em abril de 2008, em parceria com a SOBH-Sociedade Orquidófila de Belo Horizonte, ACW-Associação da Cattleya Walkeriana e Associação Nipo-Brasileira de Belo Horizonte, no ano do  Centenário da Imigração Japonesa); Mostra Coletiva com John Dennis Howard,  Massato Ito, Mildred Pacitti Rocha, Sílvio Russo, em 2012, semana da inauguração do Teatro Castro Alves; Exposições de peças em feiras (como Feira de Turismo Estadual, em 2010), estandes da Prefeitura Municipal, gestão Cido Sério etc. e mostras em praça pública de Penápolis, além de cenografias para peças teatrais

"Entendo por Arte um fazer em que você pode se expressar livremente, sem se preocupar com a opinião pública, com  o “retorno” financeiro  e muito menos com a 'crítica especializada'. Minha arte é funcional, suplementar e só existe em função de um objetivo específico. Nunca fiz um quadro para dependurá-lo em uma parede, não me considero artista,  tenho muita preguiça em produzir...sou do tipo fogo de palha, que produz alucinadamente por vários dias, trabalhando às vezes até de madrugada, e outras vezes, ficando até dez anos sem produzir nada... vários projetos com parceiros que aguardam pacientemente... meses, anos, décadas (rs)...e só funciono mediante “empurrão”.


Sobre o tratamento que dão às artes plásticas no mundo, vê que é proporcional à qualidade do governo de cada país. Quanto mais desenvolvido o país, melhor o tratamento que dão às artes. No Brasil, existem os mecanismos da Lei Rouanet e outras, a que os artistas têm pouco acesso por despreparo. O Brasil, por ser um país emergente, recém saído da miséria, tem outras prioridades. Está dando comida ao povo, mas vendo que só isso não é suficiente, já ensaia  uma forma de propiciar cultura e lazer à população. Já está em andamento o “bolsa cultural” uma espécie de vale, que dará acesso às camadas mais pobres, de se incluírem aos consumidores de cultura.

"De nada adianta se produzir um espetáculo, um filme, uma peça de teatro, uma escultura se não houver público consumidor", considera Massato. Considera que tem muita gente usando “crachá de artista” indevidamente. Quanto ao “fazer artístico, sei que o produtor de arte quer ser recompensado pelo seu trabalho. Vejo que as políticas culturais pendem sempre para algumas modalidades de arte. Alguns ministros da cultura priorizam o cinema aparentemente concedendo orçamentos exorbitantes a cineastas que utilizam só um centésimo da grana oferecida,  na execução de seus projetos. Escândalos passaram a se tornar públicos, não vamos citar nomes...Outros ministros da cultura priorizam a música, pelo fato de ser músico, concedendo benécias a componentes de sua “turma”, pagando vultosos cachês aos amigos e cachês pequenos a outros, (até mais qualificados que os bem pagos); outra ministra priorizou em demasia investimentos em montagens teatrais... Quem sabe quando tivermos um Ziraldo ou  uma Tomie Ohtake ministros, o segmento das artes plásticas não seja favorecido?", pondera Massato Ito.

Com relação a presença das artes plásticas em Araçatuba e região, prefere se  abster de tecer maiores comentários, apenas observa que aprecia pouca coisa do que é feito na cidade em termos de artes plásticas, cito os  “ Paulos”:  Paulino Poura, Paulo Roberto, Paulo Sebastião (o primeiro  e o segundo são escultores, e o terceiro além de escultor, entalhador e  pintor;  as pintoras: Márcia Porto,  Ângela Wischer, Renata Madeira  e  Fernanda Russo.

"Acho que temos grandes talentos mais  em outras áreas. Na região, Penápolis sempre esteve muitos passos à frente em artes plásticas, porque tinha o Celso Egreja, que funcionava como uma espécie de mecenas, e investia com recursos próprios,  se dedicava, trazia a Bienal de São Paulo para aquela cidade, com obras dos maiores nomes das artes plásticas no Brasil (Mabe, Tomie Ohtake, Megumi Yasa, Aldemir Martins, Grassman, Tozzi etc). Sem contar que a cidade tem  o Museu de Arte Primitiva e Naif (melhor do país nesta especialidade ), Museu  Municipal do Folclore  e  já sediou uma das mais importantes galerias de arte do país, a Itaú Cultural. Infelizmente  o ciclo áureo da cidade entrou em declínio e quase tudo foi perdido.

Para o artista, o mundo precisa de arte assim como precisa de educação, saúde, esporte, alimentação. A arte de um povo é o seu alimento espiritual. A arte serve de parâmetro para se avaliar  o nível de qualidade de uma civilização. Se a cultura é a cara de um povo,  a arte é a sua “impressão digital”, compara o artista.

Sobre seu fazer artístico, diz que algumas obras surgem  espontaneamente, sobretudo as esculturas, que via de regra não são projetadas. Decide o que vai surgir da argila à medida  que vai testando  a sua maleabilidade e qualidade. A decisão tem relação também com a quantidade de material disponível . Se for pequena, fica restrito a produzir  peças não muito detalhadas.

Quanto ao processo de  produção de um quadro (pintura) já  é diferente; tudo é previamente estudado, desde a forma como buscará transmitir uma ideia, o material a ser utilizado, as cores escolhidas e como deverão exercer as suas funções, composição, equilíbrio, simetria. Mas tudo com relevo e textura (tridimensional).

"Como já mencionei, minha arte só existe em função de  estímulos exteriores,  de convites, ou de parcerias... A última, estou até agora esperando que se concretize, vinda de  um  grande artista que produz esculturas musicais, que conquistou a minha admiração, sobretudo pelo grande talento  e  infinita humildade. Enquanto eu participava de  uma oficina deste artista, ele me falou, comentou, se eu me proporia a fazer,  não me lembro bem se era capa ou ilustrações de um trabalho seu, que entendi, fosse um livro... Este  projeto, espero, seja confirmado, além do projeto da  capa e ilustrações do texto de André Luíz Mansur, (que tem coluna literária no Jornal O Dia, do Rio de Janeiro,  já elaborado, só faltando finalização)... e cenário para o próximo show musical do César Menezes, Mauro Rico e Pepa  (e de possíveis outros integrantes a serem convidados). Quanto aos meus trabalhos, ora produzo livremente, como em ilustrações ou capas de livros, ora seguem diretrizes, por exemplo, quando se trata de cenografia para teatro", confidencia Massato.

Sobre viver da arte, diz que não vive dela. "Via de regra, sempre tenho prejuízo. Tenho que botar material, dinheiro do bolso...Acho que até hoje só recebi por um presépio gigante que ficou exposto no  MultiShop e por uns Papais-Noéis que fiz para o Arthur Leandro Lopes, bons pagadores", destaca. Quando seu trabalho atinge patamares de qualidade que impõe a si mesmo, sente-se realizado, embora sempre exista a sensação de que poderia ter ficado melhor. E o fato de não ter o lucro como foco não significa que ele encare a arte como hobby, muito pelo contrário.

Bom, isto foi um pouco do que esse grande artista tem oferecido para Araçatuba e para o Brasil. Espero, que como eu, tenham gostado de conhecê-lo. Um forte abraço e até semana que vem.

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

AVATAR

* Professora universitária e mestre em Mídias Digitais
Se você chegou a pensar que algum dia o cinema seria substituído pelos DVDs ou, agora, pelos Blu-rays, esqueça; não há como substituir o programa cinema, ainda mais com as inovações que os diretores se propõem a buscar a cada dia.

Nessa semana vamos conhecer um pouco mais sobre o filme AVATAR e entender o avanço que teve o cinema mundial em parceria com a computação gráfica.  Ao assistir ao filme, prepare-se para embarcar numa viagem para um novo mundo. O diretor James Cameron, um visionário e perfeccionista, escreveu o filme há 15 anos e aguardava o momento em que a tecnologia se desenvolvesse para conseguir converter em filme as fantásticas paisagens pensadas para a história.


O início do filme é simples e não dá para imaginar o que virá pela frente. O ator Sam Worthington interpreta Jake Sully, um rapaz que, após sofrer um acidente e ficar numa cadeira de rodas, vê no projeto Avatar uma possibilidade de voltar a sentir a vida. O projeto tem como objetivo buscar, custe o que custar, uma poderosa fonte de riqueza que está em Pandora, um lugar habitado pelos alienígenas Na'Vis, com idioma próprio. Pacíficos eles vivem em parte como ancestrais humanos, usam arco e flecha, cavalgam animais estranhos que se conectam a eles por meio de uma calda, às vezes, emitem grunhidos quando estão alegres ou bravos.


Sigourney Weaver é a Dra. Grace, uma cientista que lidera um grupo que conduz o projeto AVATAR, que consiste na transferência temporária da mente humana para o corpo de um Na'Vi (o Avatar). Ela passa a conviver com os Na'Vis para conhecê-los melhor e, a partir disso, se envolve com a comunidade junto com Jake, que também foi escolhido para se infiltrar em Pandora.


No roteiro, encontramos o "arroz com feijão" das histórias: mocinho, mocinha, vilão, protetores e assim por diante. O mérito vai para o conjunto que reuniu trilha sonora, estrutura, falas de fácil entendimento e com o envolvimento de um humano que não consegue se decidir entre o certo e o errado, ao envolver-se com o mundo azul de Pandora.


Assim é AVATAR, uma história de amor, acrescentada de consciência; um épico da ficção científica e um marco do cinema na era tecnológica. Os efeitos especiais desenvolvidos por Cameron misturam ator real e computação gráfica e superam qualquer efeito tecnológico já visto.  Os Na'Vis são exóticos,  enormes, possuem a cor azulada e possuem traços de animais, mas possuem muita humanidade nos gestos e olhares. Eles são impressionantes e envolventes.  

No filme, 40% das cenas são gravadas por atores reais, as demais cenas foram todas produzidas por computação gráfica (CGI) e foram gravadas em 2007, embora desde 1999 Cameron aguardava o mercado lançar condições de tecnologia mais baratas para produzir o filme. Mas, após ver Senhor dos Anéis, Cameron decidiu realizar Avatar, tamanho o realismo que viu no personagem Gollum levou-o a perceber que a tecnologia CGI tinha avançado o suficiente para concretizar seu projeto. Esse foi seu primeiro filme produzido após Titanic.


AVATAR é um espetáculo visual. O longa é longo mesmo (risos) e talvez, para alguns, isso seja um ponto negativo, mas o tempo parece não passar. Quando nos infiltramos junto com os personagens em Pandora vivemos por alguns momentos em um mundo dos sonhos;  a vida pode ser azul realmente em Pandora,  e dá mesmo pra se imaginar convivendo com os Na'Vis, conversando em seu idioma, com toda sensualidade que seus habitantes possuem. A magia vive em Pandora e essa sensação faz com que o filme toque muito forte no espectador. Assistir a esse filme pode ser uma experiência inesquecível e profunda. 

Experimente e seja bem-vindo à Pandora! Por hoje é isso, até a próxima semana...

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Muito autor pra pouca música

*Jornalista e escritor

“Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê,/ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê, berê ./ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê,/ É o (...)* Fazendo bará, berê ./ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê,/ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê, berê .”

Não, não é a terceira lição da cartilha Caminho Suave. Se bem que poderia, sem dificuldade alguma, sê-lo. Também não é a transcrição fonética das primeiras palavras disparadas por um infante em uma tentativa de comunicar-se com seus pais, que o casal, enamorado pela situação, resolveu registrá-las para posteridade. 

Trata-se, na verdade, de um excerto de música – dessas tipo “chiclete”, que gruda na mente da gente, e  a gente fica repetindo o dia todo sem mesmo querer.

Sapeando os canais de televisão neste domingo, deparei-me com a polêmica envolvendo esta música. Quem é o autor ou autores dela? A disputa está na justiça, porque cada um dos envolvidos quer lograr dos lucros que o sucesso dela está trazendo.

Aí fiquei pensando na raiz do problema; no cerne da questão. Quem é o autor da música? Não. Os que provocaram o sucesso dela e, consequentemente, o surgimento da polêmica sobre o “pai da criança”.

Os que abrem os ouvidos e o coração para o “bara berê” é que são os culpados disso. Cada um dos que alimentam o cenário musical popular de tais peças musicais é que estimulam esse tipo de disputa e, o pior, a produção e continuidade desse tipo de prestação de serviço.

Não tenho preconceito de espécie alguma – ao menos procuro não ter –, mas esse não deveria ser o tipo de música a ocupar com tanta dimensão e espaço a grade de programação de canais abertos, tevê pública, diga-se de passagem. “Bara berês”, “Leque leques” e outros tipos de tartamudeados deveriam ser, a meu ver, diluídos entres canções de Chico e Milton Nascimento, entre acordes de Beethoven e Mozart, entre poesias de Bob Dylan e John Lennon...

Quem dera as disputas nos tribunais brasileiros, que versam sobre arte, tivessem em suas citações algo mais poético para ser lido. Fico imaginando os advogados fazendo a defesa de seus clientes nesse caso: “Meritíssimo, gostaria de ler um trecho da música em disputa para que o senhor avaliasse que, o que aqui se demonstra, é resultado de profunda reflexão noturna e que traduz todo cabedal cultural de meu cliente: 

‘Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê,/ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê, berê ./ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê,/ É o (...)* Fazendo bará, berê ./ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê,/ Bará, bará, bará,/ Berê, berê, berê, berê’”. Ao que, no final, o juiz profere a sentença:

“Culpados. Todos são culpados pela existência dessa m**da na cancioneiro brasileiro”. 

* No referido espaço, aparecem os nomes da dupla ou, no caso de solo, do cantor que entoa a referia canção. Nesse caso, deixei em aberto em razão da polêmica citada.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

O Guri e seus guris

*Professora de música e regente de coral, formada pelo Instituto de Tatuí
Estamos ainda sob os efeitos e as expectativas do movimento “Vem Pra Rua”, quando o povo precisou fazer mais que pagar seus impostos e cumprir as leis para que fosse ouvido e respeitado. Ainda não tivemos grandes efeitos de todo esse movimento e, parece, que o povo se acostuma rapidamente com adereços mais do que essência.

O povo brasileiro tão afetado pelo estrangeirismo, deixa nossas raízes expostas e nossa identidade brasileira tão vulnerável, parece se acostumar rapidamente com discursos recheados de promessas mais do que com atitudes permeadas de respeito. 

Basta um discurso, uma mexidinha aqui, sem grandes proporções, para que o povo, crédulo que é, pare de reclamar. Mas, mesmo em meio a essa imaturidade brasileira, vemos ações que, de forma prática, movimentam o futuro do país na direção de mudanças. Existem projetos fantásticos por todo o nosso país que lutam assiduamente contra a desesperança do povo acerca de mudanças e que tratam as pessoas como iguais.

Há três anos trabalho em um projeto maravilhoso e gostaria de compartilhar essa experiência com vocês, e contar um pouco de nosso trabalho. Vou fazer um panorama de nossa história para que você nos conheça. 

PROJETO GURI

O Projeto guri é mantido pelo governo do estado de São Paulo e é considerado o maior programa sociocultural brasileiro, oferecendo, desde 1995, nos períodos de contra-turno escolar, cursos de iniciação musical, coral, instrumentos de cordas dedilhadas, cordas friccionadas, sopro, teclados e percussão. Mais de 49 mil crianças, adolescentes e jovens entre 7 e 18 anos fazem aulas nos mais de 410 polos distribuídos por todo o estado de São Paulo. Nossa cidade, Araçatuba, tem um polo do Projeto Guri e tem o privilégio de ser a Regional de polos circunvizinhos. 

O Projeto é administrado por duas organizações sociais ligadas à Secretaria de Estado da Cultura. Os mais de 370 polos distribuídos pelo interior e litoral do estado, com cerca de 35 mil guris, são dirigidos pela Associação Amigos do Projeto Guri (Amigos do Guri), enquanto a gestão das unidades da capital é feita pela Santa Marcelina Organização Social de Cultura. A gestão compartilhada do Projeto Guri atende a uma resolução da Secretaria que regulamenta parcerias entre o governo e pessoas jurídicas de direito privado para ações na área cultural.

Além do Governo do Estado de São Paulo – idealizador do projeto – a Amigos do Guri conta com o apoio de prefeituras, organizações sociais, empresas e pessoas físicas. Instituições interessadas em investir na Amigos do Guri e contribuir para o desenvolvimento integral de crianças, adolescentes e jovens, têm incentivo fiscal da Lei Rouanet e do Fundo Municipal da Criança e do Adolescente (FUMCAD). Pessoas físicas também podem contribuir. 

Enfim, é um Projeto que contribui de maneira competente com o aprendizado, crescimento emocional e cultural de nossas crianças e jovens, além da fantástica integração social que proporciona.

Este ano o Projeto faz 18 anos, ganha sua maioridade e se alegra com o trabalho realizado. Apesar de todas as barreiras que encontramos, principalmente em relação às parcerias com as prefeituras - em relação à cessão de locais apropriados e da manutenção desses locais para que possamos ministrar nossas aulas.

Aqui mesmo em Araçatuba, tenho muitas cadeiras empilhadas há mais de um ano em minha sala sem que haja desprendimento dos parceiros para que possamos arrumá-las. Nossas salas necessitam de pintura, existem vidros quebrados, vazamentos, cortinas emperradas, entre outras coisas. Não dispomos de rampas de acesso para deficientes, inclusive quando eu mesma tive um acidente grave em meu pé e precisei retornar às minhas atividades, ainda com grande dificuldade de locomoção, tive que enfrentar uma escada para ter acesso à Secretaria da Cultura, onde o Projeto funciona, ou entrar por um estacionamento coberto de pedregulhos, por onde meu pé não firmava, ou também a opção de esperar alguém abrir o portão que dá acesso ao Teatro Castro Alves para que pudesse entrar. Essas atitudes de descaso, muitas vezes, nos incomodam, mas a esperança de ver nossas crianças e adolescentes, através da música, firmados socialmente, com bagagem musical e social que os coloque como partes integrantes em nossa sociedade, como iguais, é que nos estimula e nos direciona para um futuro esperançoso. 

Há três anos sou Educadora Musical da disciplina de Fundamentos da Música e tenho muita história maravilhosa para contar sobre minha experiência nesses poucos anos, vendo meninos e meninas crescerem musicalmente e conquistarem respeito por meio dos relacionamentos promovidos pelo projeto. 

No Projeto, temos capacitação para educadores, coordenadores e demais funcionários. Temos apoio e respaldo para que possamos ministrar nossas aulas com excelência. Psicólogos, pedagogos e outros profissionais trabalham para que tenhamos todo o aparato necessário no trato com nossos alunos, visando o desenvolvimento integral de nossas crianças, adolescentes e jovens.  

Temos turmas de vários níveis e existem grupos de referências que são grupos de alunos com maior habilidade, patrocinados pelo Projeto para que aperfeiçoem seus talentos e tenham a possibilidade de seguir profissionalmente como músicos. 

Vou compartilhar com vocês o vídeo comemorativo de nossos 18 anos:

O Trenzinho Caipira (Bachianas Brasileiras II) de Heitor Villa-Lobos = Projeto Guri (Grupos de Referência) 


Não tem como eu não assistir a esse vídeo sem chorar e sentir-me participante da massa que "Vai Pra Rua", mas pega na pá!

Venha conhecer nosso Projeto; assista a nossos vídeos no Youtube; participe de nossas apresentações. Apoie esse trabalho – pode ser só com seu sorriso e suas palmas para que nossos guris, que tocam e cantam, continuem pensando num Brasil melhor, com mais igualdade, a partir de nossa cidade.

Um forte abraço e até a próxima semana.